Música de protesto no século XXI: Coffee Break com Sónia Pereira

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Sónia Pereira foi a investigadora convidada do último Coffee Break do CECC antes do Verão, no dia 14 de Junho de 2017. Doutoranda do programa em Estudos de Cultura da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa e investigadora júnior do CECC, onde exerce funções de Assessoria Científica, Sónia Pereira licenciou-se em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa. Com experiência em jornalismo musical, a investigadora fez o mestrado em Estudos de Cultura pela Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, com uma dissertação intitulada “Rock Music and Toxic Discourses: A case study of Toxicity, by System of a Down”. Prepara actualmente a tese de doutoramento sob o título “Discursos da guerra na música rock no século XXI”, na área de Estudos Culturais e música, em particular na sua interseção com os discursos políticos e ideológicos.

Ao Coffee Break, a investigadora trouxe o tema das canções de protesto no século XXI, começando por questionar: ainda há canções de protesto? A reflexão partiu da ideia de que a música é um discurso cultural, sempre em relação com o contexto político e social em que é produzida e recebida, e nessa medida pode ser uma via para a expressão do protesto, recusando que este esteja associado a um género musical ou a uma época em particular. Existe a ideia de senso comum que associa o rock ao protesto, um género que nasceu como anti-sistema, povoado por figuras de rebeldia e inadequação social, afirmando-se como linguagem da juventude, por natureza mais propensa à contestação. Mas esta é uma relação complexa e dialética, afirmou a investigadora, recusando visões essencialistas. Historicamente, explicou, a folk song nos anos 60 ficou associada ao movimento de defesa dos direitos civis, nos EUA, coexistindo a tendência musical e o contexto político particular que se estimularam mutuamente. Mas outros géneros assumiram dimensões de protesto, como foi o caso do punk rock inglês, nos anos 70, o reggae jamaicano na mesma época, ou, na década de 90 do século XX, o grunge, o heavy metal ou o hip-hop.

Sónia Pereira foi sempre pontuando a apresentação com dúvidas que coloca à sua investigação: as canções de protesto resultam? As intenções artísticas e os resultados sociais podem ser verificados? Contra que poderes se pode uma canção afirmar enquanto protesto?  Uma canção de protesto traduz-se em acções? Nesta complexa teia de perguntas, muitos factores condicionam as respostas: o processo de produção/circulação da música, a subtileza e simbologia das letras e dos ritmos, os processos mediáticos, a disponibilidade ou a indiferença da audiência ou as idiossincrasias dos processos de codificação e descodificação das mensagens artísticas.

A investigadora apontou vários exemplos de canções concebidas como protesto que não foram recebidas dessa forma e de revisitações de uma canção que na origem era de protesto e que deixa de o ser, referindo os equívocos gerados neste processo. A célebre canção “We shall overcome”, popularizada no género folk, e originária dos cantos negros do gospel, um hino da luta dos direitos civis, foi inserida na compilação “God Bless America”, editada um mês depois do atentado do 11 de Setembro. Incluir uma canção marcada por grandes e violentas cisões sociais, na América separatista da década de 50, num disco que pretendia, em 2001, engrandecer a ideia de nação unida perante um acontecimento traumático, é problemático, considerou a investigadora.

“As canções não vivem no vazio”, afirmou, em género de síntese. Integram, reflectem e são feitas dos contextos que as enquadram. Não criam os protestos, expressam-nos, interagem, articulam-se. E estão sujeitas a falha, descontextualização e releitura. Numa época transnacional, em que os públicos se reconfiguram e reorganizam sob lógicas e orgânicas ainda não totalmente claras, o que é hoje uma canção de protesto e como poderá funcionar? Questões que motivam a investigação de Sónia Pereira, apresentada no Coffee Break a investigadores de Estudos de Cultura, História, Filosofia e Literatura, entre outras áreas, e que encontraram no tema um amplo campo de debate e discussão interdisciplinar.

Coffee Break com Maria Sequeira Mendes: a lisonja na obra de Shakespeare

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O tema parece improvável mas, segundo a investigadora Maria Sequeira Mendes, é um dos mais abordados na obra de William Shakespeare, logo a seguir ao ciúme. É, aliás, um assunto que percorre a literatura, desde a Antiguidade Clássica, passando por Dickens e Jane Austen até à contemporaneidade.

Não é por acaso, então, que seja este o tema do livro que a investigadora está a preparar. Maria Sequeira Mendes, actualmente docente no curso de Teatro da ESTC, doutorou-se em Teoria da Literatura com uma tese sobre Shakespeare, e desenvolve investigação nessa área, Lei e Literatura e Estudos de Teatro.  Foi a convidada do último Coffee Break do CECC, no passado dia 4 de Maio.

No seu percurso de investigação, um enigma permanecia sem solução: Porque sucumbem as pessoas à lisonja? Parte da resposta está precisamente nas peças de teatro de Shakespeare, autor que trata a lisonja de forma ambígua, nem sempre negativa. Três características são comuns a todas as formas de lisonja: é prolongada no tempo, na medida em que origina uma acção que deve produzir, depois, um resultado; é relacional, porque envolve alguém que pratica a lisonja e alguém que a recebe e lhe é sensível; e requer uma audiência, factor que sublinha o seu efeito.

O lisonjeiro, ao contrário de um amigo (o outro “eu”, ideia que remonta à Antiguidade Clássica), não espelha o outro, nas suas qualidades e defeitos, mas apenas o faz nas dimensões agradáveis, mimetizando um ideal. O lisonjeado sente-se engrandecido porque é incitado a gostar de si em demasia e é tanto maior o impacto da lisonja quanto ela corresponde à forma como o lisonjeado se quer ver ou representar. Plutarco lembrava que para testar a verdadeira amizade, por oposição à lisonja, se deveria produzir várias opiniões diferentes sobre o mesmo assunto numa primeira fase do contacto entre dois conhecidos: se a reacção do outro for de adesão, então está-se perante um lisonjeiro e jamais perante um verdadeiro amigo, ou outro “eu”.

Nas intrigas cerzidas por Shakespeare, encontra-se muito material de reflexão sobre esta forma de agradar alguém com um fito específico e a diversidade de situações presentes nesta obra reflecte a complexidade do tema. No caso de Iago que lisonjeia Otelo, este fá-lo através da calúnia e da difamação, o que desperta os medos mais profundos do Mouro de Veneza, com claras intenções nefastas. Em Júlio Cesar, encontra-se um exemplo da lisonja pela vaidade: Cássio lisonjeia Brutus, que se sente apreciado, estimulando os aspectos com que este gostaria de ser identificado e com total desconhecimento da manipulação por parte do lisonjeado. Muito diferente é o caso de Henry V, que lisonjeia as suas tropas, à beira da batalha na qual estão em desvantagem numérica, através da motivação egótica de cada soldado, indiferente, no entanto, ao facto de que muitos perderão a vida. Uma acção duvidosa do ponto de vista moral com uma finalidade benéfica, na perspectiva da personagem. Em Péricles, a lisonja de Helicanus assume uma fisicalidade expressiva, através da vénia de joelhos, com propósitos diplomáticos positivos: alcançar a paz.

Estas são algumas pistas preciosas deixadas pelo dramaturgo inglês, e partilhadas por Maria Sequeira Mendes, para pensar um fenómeno relacional complexo e com muitas consequências, que também se pode reconhecer no espaço público contemporâneo, em áreas tão diversas como o futebol ou a política. O psicólogo do famoso jogador inglês Andy Murray explicou-lhe que a causa dos seus infortúnios profissionais residia na sua incapacidade de praticar a auto-lisonja e prescreveu-lhe formas de a estimular, o que foi decisivo na sua carreira. Já Trump, o presidente americano, é o exemplo oposto, em que a escala da vaidade permite que a lisonja faça sempre eco.

Os investigadores presentes no Coffee Break colocaram várias questões, por exemplo, sobre como se determina o valor moral da acção da lisonja, no emissor ou no receptor, se esta pode ser interpretada como um acto de discurso, de acordo com a noção do filósofo da linguagem John L. Austin. Foram discutidos vários exemplos na literatura de figuras lisonjeiras e lisonjeadas e o seu impacto nas narrativas. Peter Hanenberg, director do CECC, concluiu a sessão, lembrando que o tema trazido por Maria Sequeira Mendes  é exemplar da forma como a literatura é essencial, ajudando-nos a interpretar e compreender a complexidade da tessitura socio-cultural.

Coffee Break com Patrícia Anzini da Costa: traduções de Walt Whitman no Brasil

Patrícia Anzini da Costa, investigadora convidada do CECC, foi a mais recente oradora do Coffee Break ,  no passado dia 5 de Abril de 2017. É bacharel em Estudos de Línguas e Literaturas e Mestre em Estudos Literários pela Universidade Estadual Paulista, UNESP, Brasil. Foi aluna visitante de mestrado na Universidade de Winnipeg, Canadá, em 2011, onde concluiu a dissertação sobre poetas associados à Poesia Marginal Brasileira da década de 1970 em diálogo com o Tropicalismo (1960), movimento lítero-musical dos anos 1960. Como estudante de doutoramento no programa de Estudos de Literatura Comparada da Northwestern University, Chicago (U.S.), co-orientada por Jorge Fazenda Lourenço, ampliou a investigação inicial, ao tratar a recepção do poeta americano Walt Whitman (1819-1892) por alguns escritores e activistas culturais brasileiros.

Patrícia Anzini despertou para a riqueza da temática que viria a ser a sua tese de doutoramento quando, em 2011, participou na Walt Whitman Week, em Araraquara, no Brasil. Neste encontro, conheceu alguns tradutores do poeta americano que influenciou movimentos e autores um pouco por todo o mundo. E nessa altura perguntou-se: por que eram tão escassas as traduções de Whitman no Brasil?

Para responder a esta questão, lançou-se numa investigação em que fez o levantamento das traduções, apenas de poesia, já que os textos ensaísticos ou jornalísticos até hoje não foram vertidos para português naquele país.

Até meados dos anos 1940, apenas foram publicados no Brasil traduções de poemas em revistas literárias e publicações da área, de forma dispersa. O primeiro livro surgiu em 1944, com o título Saudação ao Mundo e Outros Poemas, tradução de Mário Ferreira Santos. Dois anos depois foi editado outro livro, pela pena do tradutor Oswaldino Marques, crítico literário de relevo na época. No ano de 1964, data que assinala o início da ditadura militar no Brasil e também o auge dos movimentos de resistência de esquerda, chega pela primeira vez ao mercado brasileiro o título Folhas de Relva, livro que conhece uma reformulação em 1983, ano dos movimentos que reclamam a abertura democrática, com o título Folhas das Folhas de Relva, na editora Brasiliense. Esta tinha um catálogo de autores considerados de margem, como os beat Ginsberg ou Kerouac, ou novos talentos, igualmente contestatários, como Paulo Leminski que, aliás, assina um prefácio a esta tradução de Whitman, onde o consagra como o poeta dos excluídos, do corpo e da homossexualidade. Até 2002, esta tradução tem 8 edições, e apresenta algumas especificidades: não respeita a partição dos versos originais, muda aspectos sintáticos de forma significativa e não publica o livro na íntegra.

Originalmente publicado em 1855, Leaves of Grass, o longo poema que Whitman rescreveu a vida toda, só tem tradução integral em 2005 no Brasil, por uma editora conhecida por traduções inexactas, que enfrentou protestos de autores e até a barra do tribunal. No mesmo ano, saiu também uma edição fac-simile da primeira publicação de Leaves of Grass, na versão de 1855, traduzida por Rodrigo Garcia Lopes, de assinalável qualidade. Em 2010, um académico dedicado ao estudo do autor americano, Bruno Gambaratto, traduziu a última versão de Whitman, aquela que este deixou instruções para ser usada após a sua morte.

Muitos aspectos foram debatidos entre a investigadora e os presentes no Coffee Break do CECC: a relação entre as datas das traduções e os momentos políticos brasileiros, as diversas traduções possíveis, em Portugal e no Brasil, do termo “grass” (em Portugal, Folhas de Erva) ou a influência de Whitman no modernismo brasileiro.

“Doppelgänger: fantasias de representação em autores bi ou multilingues”- Gerald Bär no Coffee Break do CECC

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No passado dia 7 de Dezembro decorreu uma nova edição no CECC Coffee Break onde o investigador Gerald Bär apresentou um research statement intitulado “Doppelgänger: fantasias de representação em autores bi ou multilingues”.
O orador começou por explicar que a sua abordagem passa pela análise de motivos literários, sendo o Doppelgänger exemplo de tal, enquanto fantasia de fragmentação do autor. A obra “O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde” foi referenciada como ilustrativa desta ideia. Durante a sessão, os exemplos referidos foram maioritariamente literários, embora o investigador tenha ressalvado que o motivo não é exclusivo da literatura, existindo igualmente noutras formas de arte. Foram frisadas as diferenças entre Doppelgänger literários e no cinema, sendo que os últimos utilizam diversas técnicas filmográficas ao dispor para criar o motivo.
O conceito Doppelgänger surgiu pela primeira vez em 1796, sendo mais recente que o fenómeno que apelida. A definição original descreve o Doppelgänger como aquele que se vê a si mesmo. Contudo, na literatura anglo-saxónica o termo foi apropriado com uma conotação diferente da alemã. Em português fala-se de sósia, em francês sosie, cuja origem se encontra na figura do Sósia na peça de Plauto, “Anfitrião”. Assim, sósia refere-se a um duplo cujas semelhanças se manifestam ao nível físico, naquela que é uma tradição literária completamente diferente da alemã.
Gerald Bär prosseguiu com diversos exemplos de literatura secundária onde o motivo de fantasia de fragmentação é explorado e apresentou também a sua tese publicada em 2005, “Das Motiv des Doppelgängers als Spaltungsphantasie in der Literatur und im deutschen Stummfilm”, que descreveu como uma tentativa de antologia de doppelgänger.
O orador referiu ainda a tendência para criação de fantasias de fragmentação em autores com um background multicultural ou que dominam várias línguas, como por exemplo Franz Kafka ou, no caso português, Fernando Pessoa. O investigador defendeu que o facto de Pessoa escrever em várias línguas proporcionou a criação de heterónimos ou, por outras palavras, a língua precede o heterónimo.
Ainda no caso de Pessoa, discutiu-se a tendência de críticos literários para o foco no lado patológico dos autores. Gerald Bär mencionou ainda o exemplo de E.T.A. Hoffman e frisou que, mais do que perceber se o Doppelgänger é uma estratégia de escrita ou sintomático de uma patologia mental, o importante é o conteúdo das obras e a capacidade do leitor para delas desfrutar.
Seguiu-se um visionamento de um vídeo sobre o tema, após o que os presentes foram convidados a intervir naquela que foi uma frutífera discussão sobre o conceito Doppelgänger.
O investigador explicou que o encontro com o Doppelgänger poderá, ou não, ser assustador, sendo que a maior parte das vezes não é recebido como algo positivo. Numa explicação freudiana do fenómeno, o Doppelgänger surge como a repressão do eu, sendo que o encontro com o eu reprimido poderá causar alterações na personalidade do sujeito. Além disso, o orador explicou que a fantasia de fragmentação não tem que se restringir a uma figura dupla, mas poderá ser tripla ou mais, sendo que a fragmentação múltipla se tornou comum na literatura modernista.
Por último, falou-se de casos em que o Doppelgänger consome ou toma posse do sujeito, como no caso de David Bowie e Ziggy Stardust, e da inexistência de duplos femininos até meados do século XX.

Mafalda Duarte Barrela

(aluna do 1º ano do Mestrado em Estudos de Cultura)

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CECC Coffee Break – O que pode o Cinema? A sétima arte no contexto sociocultural das humanidades

No passado dia 2 de Novembro decorreu mais uma edição da iniciativa CECC Coffee Break em que a investigadora Maria do Rosário Lupi Bello fez uma apresentação intitulada “O que pode o Cinema? A sétima arte no contexto sociocultural das humanidades”, no formato de reflexão sobre o papel e expressão do cinema na sociedade.

O título brinca com o da obra de Alain Finkielraut, Ce que peut la littérature e, tal como o autor que discute o poder da literatura e do romance na sociedade, Lupi Bello interroga-se sobre o poder do cinema e a sua importância. Durante a sessão, a investigadora foi fazendo o paralelo entre a literatura e o cinema nos diversos temas que aborda.

Começou por falar nos valores democráticos que, no contexto social contemporâneo, estão associados a ideias como igualdade, universalidade, abstração e horizontalidade. Contudo, no fenómeno literário, o oposto acontece, sendo dominantes ideias de diferença, de singularidade, concreto e verticalidade, em suma, o particular. No caso específico do romance, este, antes de ser narrativa é olhar – ou, preferencialmente, antes de ser lexis é opsis – frisando, então, a ideia do mundo enquanto espetáculo. Deste modo, o cinema, muito mais que a literatura, relaciona-se com a realidade através do olhar.

A oradora prosseguiu com algumas considerações sobre temporalidade, remetendo para Andre Tarkovsky, que vê o cinema como “tempo em forma de facto”. Com isto o cineasta pretende afirmar que o cinema imprime o tempo nas suas manifestações factuais ou acontecimentos. Ele diz ainda que, mais que ser a sétima arte, o cinema incorpora um novo princípio estético.

Uma outra diferenciação reside na dicotomia de cinema enquanto arte e enquanto indústria que dificilmente será tão acentuada noutras formas de arte. A oradora referiu, neste sentido, a distinção feita por Bresson entre cinema e cinematógrafo, sendo que o primeiro termo se refere ao fenómeno pobre, ao entretenimento, e o segundo à relação entre voz, imagens que produzem algo novo, a uma outra forma de sentir e pensar. A surpresa, neste contexto, é altamente valorizada por Bresson.

A investigadora mencionou ainda Pasolini que afirma que o cinema exprime a realidade através da realidade, não captando nada que não exista. No caso português, referiu o exemplo de Manoel de Oliveira, que declara que cinema trata da vida, do que existe, verificando-se, portanto, semelhanças entre o pensamento destes cineastas. A hipótese de entender significados é considerada por Rosário Lupi Bello como “aquilo que de mais valioso o cinema pode ter”, facto contestado numa posição que defenda a mera presença real que habita as obras de arte.

Quanto à narrativa no cinema, a oradora é de opinião que, por definição, “o cinema não pode não ser narrativo”, criticando o convidado da última edição da Lisbon Summer School for The Study of Culture, Peter Greenaway. O cineasta afirmou que o cinema tem vindo a submeter-se a uma lógica literária, por oposição à ligação necessária entre este e narrativa que Lupi Bello defende.

Em conclusão, a investigadora defendeu que o cinema desempenha um papel crucial no contexto sociocultural, sendo que a temporalidade lhe confere uma forma única de abordar temáticas e explorar significados.

Antes da intervenção dos presentes, em que se debateu o conceito de tempo no cinema, a comparação do cinema com música, a expetativa sobre o papel do público e a questão da mediação do impacto sobre o recetor, Rosário Lupi Bello partilhou com um grupo um momento do filme “American Beauty” (1999). O excerto permitiu realizar uma analogia com o próprio cinema, frisando assim a sua especificidade.

A próxima sessão do CECC Coffee Break realizar-se-á no dia 7 de Dezembro, com uma apresentação de Gerald Bär.

Mafalda Duarte Barrela

(Aluna 1º ano Mestrado Estudos de Cultura)

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Coffee break de Outubro: A propósito de Vilém Flusser

 

No passado dia 18 de Outubro, retomou-se a iniciativa CECC Coffee Breaks, que segue para a sua 6ª edição, com uma apresentação sobre o filósofo Vilém Flusser dos investigadores Fernando Ilharco, doutorado em Information Systems pela London School of Economics (LSE), e Élmano Souza, doutorando em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa.
Fernando Ilharco começou por falar na vida e obra do autor, referindo que este “tem o seu quê de mistério e diferença na experiência humana da vida”. Vilém Flusser nasceu em Praga em 1920, onde iniciou o estudo de filosofia. Devido à ocupação nazi, altura em que perdeu grande parte da família, tem uma breve passagem por em Londres, onde continua os estudos na LSE. Em 1940, muda-se para o Brasil, país onde vive durante grande parte da sua vida. Segundo Fernando Ilharco, é então que Flusser começa a escrever e pensar em português, considerando o ser brasileiro a sua primeira identidade. Nos anos 70 deixa o Brasil e passa uma temporada em França, para regressar a Praga em 1991 onde acaba por falecer num acidente de carro.
O autor poliglota escrevia regularmente em alemão, aquela que considerava a sua língua de trabalho, e português. Flusser, segundo o orador, é um nómada e apátrida do conhecimento, o que é exemplificado pela obra “Filosofia da caixa preta”, publicada naquelas duas línguas. A caixa preta surge, no sentido literal, como a câmara fotográfica, e no sentido metafórico como os media, as tecnologias e a cultura mediática no geral. Em Língua e Realidade, o autor explora como os distintos grupos linguísticos constroem realidades e tempos diferentes. Outras obras mencionadas pelo orador incluem O Universo das imagens técnicas, Vampyroteuthis Infernalis, Uma filosofia do Design, Writings, sendo esta uma coletânea dos seus textos traduzidos para inglês”, Flusseriana, uma enciclopédia dos termos de Flusser, A Escrita: há futuro para a escrita?” e Fenomenologia dos gestos.
Fernando Ilharco introduziu ainda o conceito das três catástrofes, que Flusser define como momentos de rutura imprevisíveis. A primeira refere-se à descida do primata para a savana, o que lhe confere um caráter nómada. Na segunda catástrofe, o homem corta com o nomadismo para dar lugar ao sedentarismo. Numa reflexão muito teórica e especulativa, Flusser fala metaforicamente em “paredes”, que o homem constrói em seu redor. A terceira catástrofe, que agora experienciamos, é, afirma, a catástrofe sem nome, em que o mundo não é parado por paredes e o homem surge como nómada informacional e comunicacional. A história, segundo Flusser, está dividida em três períodos: a pré-história, a história e a pós-história. Existe uma certa dialética entre os três momentos, sendo que a história começa com a escrita e no terceiro momento a escrita é acelerada porque tem sucesso. Assim, os livros transformam-se em ciência que se transforma em software que culmina em imagens técnicas.

Após uma leitura e breve análise de excertos de A Escrita: há futuro para a escrita?, Élmano Souza explicou o conceito-chave de “abstração” na obra de Flusser. Começou por definir comunicologia, a teoria da comunicação que, nas palavras do autor, é um metadiscurso de todas as comunicações humanas de tal forma que este poderá ser utilizado para enfatizar as estruturas das mesmas, tendo este termo levado à inserção do seu trabalho no ramo da filosofia. Frisou ainda a relevância dos “códigos” na filosofia do autor, expressão utilizada transversalmente para se referir a pinturas rupestres, novos media ou mesmo o gesto humano. Dentro do gesto humano inclui-se, por exemplo, falar, escrever, plantar, decifrar e significar, sendo o último uma atividade humana, quotidiana e permanente. Assim, a comunicação está dependente da mediação destes códigos, que Flusser estrutura em quatro abstrações. A primeira abstração é referente à objetivação do mundo, que aqui é transformado em circunstância, e subjetivação do homem. O homem afasta-se da realidade tridimensional, palpável, que se distingue pelo gesto de manipular. O segundo gesto de abstração é a visão, caracterizado pela sua bidimensionalidade, em que a circunstância imaginada representa o mundo. Com o surgimento da escrita, surge uma terceira abstração, unidimensional, ocorrendo assim a consciencialização e historização do mundo. Deste modo, basta ao homem o gesto de concetualizar para perceber o mundo, o universo contável. Por último, a quarta abstração refere-se ao gesto de calcular. Surgem as imagens técnicas, que não fazem mais referência à circunstância, que resultam da desintegração do mundo em pontos zero-dimensionais, e cuja agregação permite uma nova atribuição de significado à mediação. Nesta situação, existe o risco de o homem utilizar o programa, o software, mas não compreender o seu mecanismo. Assim, na 4ª abstração, Flusser receia que o homem não entenda o funcionamento interno da “caixa preta”.
Nesta linha de pensamento, o investigador Élmano Souza terminou com um alerta, citando o aforismo grego “Conhece-te a ti mesmo”, pretendendo com isto frisar que a compreensão do lugar do homem no mundo o ajuda a melhor comunicar.
O próximo Coffee Break ocorrerá no dia 2 de Novembro, com a investigadora Rosário Lupi.

 Mafalda Duarte Barrela

(aluna 1º ano do Mestrado em Estudos de Cultura)

A geografia do(s) Modernismo(s) no Coffee Break com Steffen Dix

Steffen Dix apresentou no Coffee Break do CECC a sua nova investigação, em torno das geografias dos modernismos lusófonos e as redes que se estabeleceram entre cidades situadas em diferentes continentes, sublinhando as recentes considerações de alguns autores sobre a descentralização do conceito de Modernismo.

No mesmo encontro, o director Peter Hanenberg comentou os eventos organizados pelo CECC no mês de Abril e anunciou os próximos, como “Arquiteturas: a Guerra Civil de Espanha e as Modernidades Peninsulares”   a decorrer já na próxima semana.

 

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