Música de protesto no século XXI: Coffee Break com Sónia Pereira

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Sónia Pereira foi a investigadora convidada do último Coffee Break do CECC antes do Verão, no dia 14 de Junho de 2017. Doutoranda do programa em Estudos de Cultura da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa e investigadora júnior do CECC, onde exerce funções de Assessoria Científica, Sónia Pereira licenciou-se em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa. Com experiência em jornalismo musical, a investigadora fez o mestrado em Estudos de Cultura pela Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, com uma dissertação intitulada “Rock Music and Toxic Discourses: A case study of Toxicity, by System of a Down”. Prepara actualmente a tese de doutoramento sob o título “Discursos da guerra na música rock no século XXI”, na área de Estudos Culturais e música, em particular na sua interseção com os discursos políticos e ideológicos.

Ao Coffee Break, a investigadora trouxe o tema das canções de protesto no século XXI, começando por questionar: ainda há canções de protesto? A reflexão partiu da ideia de que a música é um discurso cultural, sempre em relação com o contexto político e social em que é produzida e recebida, e nessa medida pode ser uma via para a expressão do protesto, recusando que este esteja associado a um género musical ou a uma época em particular. Existe a ideia de senso comum que associa o rock ao protesto, um género que nasceu como anti-sistema, povoado por figuras de rebeldia e inadequação social, afirmando-se como linguagem da juventude, por natureza mais propensa à contestação. Mas esta é uma relação complexa e dialética, afirmou a investigadora, recusando visões essencialistas. Historicamente, explicou, a folk song nos anos 60 ficou associada ao movimento de defesa dos direitos civis, nos EUA, coexistindo a tendência musical e o contexto político particular que se estimularam mutuamente. Mas outros géneros assumiram dimensões de protesto, como foi o caso do punk rock inglês, nos anos 70, o reggae jamaicano na mesma época, ou, na década de 90 do século XX, o grunge, o heavy metal ou o hip-hop.

Sónia Pereira foi sempre pontuando a apresentação com dúvidas que coloca à sua investigação: as canções de protesto resultam? As intenções artísticas e os resultados sociais podem ser verificados? Contra que poderes se pode uma canção afirmar enquanto protesto?  Uma canção de protesto traduz-se em acções? Nesta complexa teia de perguntas, muitos factores condicionam as respostas: o processo de produção/circulação da música, a subtileza e simbologia das letras e dos ritmos, os processos mediáticos, a disponibilidade ou a indiferença da audiência ou as idiossincrasias dos processos de codificação e descodificação das mensagens artísticas.

A investigadora apontou vários exemplos de canções concebidas como protesto que não foram recebidas dessa forma e de revisitações de uma canção que na origem era de protesto e que deixa de o ser, referindo os equívocos gerados neste processo. A célebre canção “We shall overcome”, popularizada no género folk, e originária dos cantos negros do gospel, um hino da luta dos direitos civis, foi inserida na compilação “God Bless America”, editada um mês depois do atentado do 11 de Setembro. Incluir uma canção marcada por grandes e violentas cisões sociais, na América separatista da década de 50, num disco que pretendia, em 2001, engrandecer a ideia de nação unida perante um acontecimento traumático, é problemático, considerou a investigadora.

“As canções não vivem no vazio”, afirmou, em género de síntese. Integram, reflectem e são feitas dos contextos que as enquadram. Não criam os protestos, expressam-nos, interagem, articulam-se. E estão sujeitas a falha, descontextualização e releitura. Numa época transnacional, em que os públicos se reconfiguram e reorganizam sob lógicas e orgânicas ainda não totalmente claras, o que é hoje uma canção de protesto e como poderá funcionar? Questões que motivam a investigação de Sónia Pereira, apresentada no Coffee Break a investigadores de Estudos de Cultura, História, Filosofia e Literatura, entre outras áreas, e que encontraram no tema um amplo campo de debate e discussão interdisciplinar.

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