Coffee Break com Maria Sequeira Mendes: a lisonja na obra de Shakespeare

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O tema parece improvável mas, segundo a investigadora Maria Sequeira Mendes, é um dos mais abordados na obra de William Shakespeare, logo a seguir ao ciúme. É, aliás, um assunto que percorre a literatura, desde a Antiguidade Clássica, passando por Dickens e Jane Austen até à contemporaneidade.

Não é por acaso, então, que seja este o tema do livro que a investigadora está a preparar. Maria Sequeira Mendes, actualmente docente no curso de Teatro da ESTC, doutorou-se em Teoria da Literatura com uma tese sobre Shakespeare, e desenvolve investigação nessa área, Lei e Literatura e Estudos de Teatro.  Foi a convidada do último Coffee Break do CECC, no passado dia 4 de Maio.

No seu percurso de investigação, um enigma permanecia sem solução: Porque sucumbem as pessoas à lisonja? Parte da resposta está precisamente nas peças de teatro de Shakespeare, autor que trata a lisonja de forma ambígua, nem sempre negativa. Três características são comuns a todas as formas de lisonja: é prolongada no tempo, na medida em que origina uma acção que deve produzir, depois, um resultado; é relacional, porque envolve alguém que pratica a lisonja e alguém que a recebe e lhe é sensível; e requer uma audiência, factor que sublinha o seu efeito.

O lisonjeiro, ao contrário de um amigo (o outro “eu”, ideia que remonta à Antiguidade Clássica), não espelha o outro, nas suas qualidades e defeitos, mas apenas o faz nas dimensões agradáveis, mimetizando um ideal. O lisonjeado sente-se engrandecido porque é incitado a gostar de si em demasia e é tanto maior o impacto da lisonja quanto ela corresponde à forma como o lisonjeado se quer ver ou representar. Plutarco lembrava que para testar a verdadeira amizade, por oposição à lisonja, se deveria produzir várias opiniões diferentes sobre o mesmo assunto numa primeira fase do contacto entre dois conhecidos: se a reacção do outro for de adesão, então está-se perante um lisonjeiro e jamais perante um verdadeiro amigo, ou outro “eu”.

Nas intrigas cerzidas por Shakespeare, encontra-se muito material de reflexão sobre esta forma de agradar alguém com um fito específico e a diversidade de situações presentes nesta obra reflecte a complexidade do tema. No caso de Iago que lisonjeia Otelo, este fá-lo através da calúnia e da difamação, o que desperta os medos mais profundos do Mouro de Veneza, com claras intenções nefastas. Em Júlio Cesar, encontra-se um exemplo da lisonja pela vaidade: Cássio lisonjeia Brutus, que se sente apreciado, estimulando os aspectos com que este gostaria de ser identificado e com total desconhecimento da manipulação por parte do lisonjeado. Muito diferente é o caso de Henry V, que lisonjeia as suas tropas, à beira da batalha na qual estão em desvantagem numérica, através da motivação egótica de cada soldado, indiferente, no entanto, ao facto de que muitos perderão a vida. Uma acção duvidosa do ponto de vista moral com uma finalidade benéfica, na perspectiva da personagem. Em Péricles, a lisonja de Helicanus assume uma fisicalidade expressiva, através da vénia de joelhos, com propósitos diplomáticos positivos: alcançar a paz.

Estas são algumas pistas preciosas deixadas pelo dramaturgo inglês, e partilhadas por Maria Sequeira Mendes, para pensar um fenómeno relacional complexo e com muitas consequências, que também se pode reconhecer no espaço público contemporâneo, em áreas tão diversas como o futebol ou a política. O psicólogo do famoso jogador inglês Andy Murray explicou-lhe que a causa dos seus infortúnios profissionais residia na sua incapacidade de praticar a auto-lisonja e prescreveu-lhe formas de a estimular, o que foi decisivo na sua carreira. Já Trump, o presidente americano, é o exemplo oposto, em que a escala da vaidade permite que a lisonja faça sempre eco.

Os investigadores presentes no Coffee Break colocaram várias questões, por exemplo, sobre como se determina o valor moral da acção da lisonja, no emissor ou no receptor, se esta pode ser interpretada como um acto de discurso, de acordo com a noção do filósofo da linguagem John L. Austin. Foram discutidos vários exemplos na literatura de figuras lisonjeiras e lisonjeadas e o seu impacto nas narrativas. Peter Hanenberg, director do CECC, concluiu a sessão, lembrando que o tema trazido por Maria Sequeira Mendes  é exemplar da forma como a literatura é essencial, ajudando-nos a interpretar e compreender a complexidade da tessitura socio-cultural.

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