Coffee Break com Patrícia Anzini da Costa: traduções de Walt Whitman no Brasil

Patrícia Anzini da Costa, investigadora convidada do CECC, foi a mais recente oradora do Coffee Break ,  no passado dia 5 de Abril de 2017. É bacharel em Estudos de Línguas e Literaturas e Mestre em Estudos Literários pela Universidade Estadual Paulista, UNESP, Brasil. Foi aluna visitante de mestrado na Universidade de Winnipeg, Canadá, em 2011, onde concluiu a dissertação sobre poetas associados à Poesia Marginal Brasileira da década de 1970 em diálogo com o Tropicalismo (1960), movimento lítero-musical dos anos 1960. Como estudante de doutoramento no programa de Estudos de Literatura Comparada da Northwestern University, Chicago (U.S.), co-orientada por Jorge Fazenda Lourenço, ampliou a investigação inicial, ao tratar a recepção do poeta americano Walt Whitman (1819-1892) por alguns escritores e activistas culturais brasileiros.

Patrícia Anzini despertou para a riqueza da temática que viria a ser a sua tese de doutoramento quando, em 2011, participou na Walt Whitman Week, em Araraquara, no Brasil. Neste encontro, conheceu alguns tradutores do poeta americano que influenciou movimentos e autores um pouco por todo o mundo. E nessa altura perguntou-se: por que eram tão escassas as traduções de Whitman no Brasil?

Para responder a esta questão, lançou-se numa investigação em que fez o levantamento das traduções, apenas de poesia, já que os textos ensaísticos ou jornalísticos até hoje não foram vertidos para português naquele país.

Até meados dos anos 1940, apenas foram publicados no Brasil traduções de poemas em revistas literárias e publicações da área, de forma dispersa. O primeiro livro surgiu em 1944, com o título Saudação ao Mundo e Outros Poemas, tradução de Mário Ferreira Santos. Dois anos depois foi editado outro livro, pela pena do tradutor Oswaldino Marques, crítico literário de relevo na época. No ano de 1964, data que assinala o início da ditadura militar no Brasil e também o auge dos movimentos de resistência de esquerda, chega pela primeira vez ao mercado brasileiro o título Folhas de Relva, livro que conhece uma reformulação em 1983, ano dos movimentos que reclamam a abertura democrática, com o título Folhas das Folhas de Relva, na editora Brasiliense. Esta tinha um catálogo de autores considerados de margem, como os beat Ginsberg ou Kerouac, ou novos talentos, igualmente contestatários, como Paulo Leminski que, aliás, assina um prefácio a esta tradução de Whitman, onde o consagra como o poeta dos excluídos, do corpo e da homossexualidade. Até 2002, esta tradução tem 8 edições, e apresenta algumas especificidades: não respeita a partição dos versos originais, muda aspectos sintáticos de forma significativa e não publica o livro na íntegra.

Originalmente publicado em 1855, Leaves of Grass, o longo poema que Whitman rescreveu a vida toda, só tem tradução integral em 2005 no Brasil, por uma editora conhecida por traduções inexactas, que enfrentou protestos de autores e até a barra do tribunal. No mesmo ano, saiu também uma edição fac-simile da primeira publicação de Leaves of Grass, na versão de 1855, traduzida por Rodrigo Garcia Lopes, de assinalável qualidade. Em 2010, um académico dedicado ao estudo do autor americano, Bruno Gambaratto, traduziu a última versão de Whitman, aquela que este deixou instruções para ser usada após a sua morte.

Muitos aspectos foram debatidos entre a investigadora e os presentes no Coffee Break do CECC: a relação entre as datas das traduções e os momentos políticos brasileiros, as diversas traduções possíveis, em Portugal e no Brasil, do termo “grass” (em Portugal, Folhas de Erva) ou a influência de Whitman no modernismo brasileiro.

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