“Doppelgänger: fantasias de representação em autores bi ou multilingues”- Gerald Bär no Coffee Break do CECC

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No passado dia 7 de Dezembro decorreu uma nova edição no CECC Coffee Break onde o investigador Gerald Bär apresentou um research statement intitulado “Doppelgänger: fantasias de representação em autores bi ou multilingues”.
O orador começou por explicar que a sua abordagem passa pela análise de motivos literários, sendo o Doppelgänger exemplo de tal, enquanto fantasia de fragmentação do autor. A obra “O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde” foi referenciada como ilustrativa desta ideia. Durante a sessão, os exemplos referidos foram maioritariamente literários, embora o investigador tenha ressalvado que o motivo não é exclusivo da literatura, existindo igualmente noutras formas de arte. Foram frisadas as diferenças entre Doppelgänger literários e no cinema, sendo que os últimos utilizam diversas técnicas filmográficas ao dispor para criar o motivo.
O conceito Doppelgänger surgiu pela primeira vez em 1796, sendo mais recente que o fenómeno que apelida. A definição original descreve o Doppelgänger como aquele que se vê a si mesmo. Contudo, na literatura anglo-saxónica o termo foi apropriado com uma conotação diferente da alemã. Em português fala-se de sósia, em francês sosie, cuja origem se encontra na figura do Sósia na peça de Plauto, “Anfitrião”. Assim, sósia refere-se a um duplo cujas semelhanças se manifestam ao nível físico, naquela que é uma tradição literária completamente diferente da alemã.
Gerald Bär prosseguiu com diversos exemplos de literatura secundária onde o motivo de fantasia de fragmentação é explorado e apresentou também a sua tese publicada em 2005, “Das Motiv des Doppelgängers als Spaltungsphantasie in der Literatur und im deutschen Stummfilm”, que descreveu como uma tentativa de antologia de doppelgänger.
O orador referiu ainda a tendência para criação de fantasias de fragmentação em autores com um background multicultural ou que dominam várias línguas, como por exemplo Franz Kafka ou, no caso português, Fernando Pessoa. O investigador defendeu que o facto de Pessoa escrever em várias línguas proporcionou a criação de heterónimos ou, por outras palavras, a língua precede o heterónimo.
Ainda no caso de Pessoa, discutiu-se a tendência de críticos literários para o foco no lado patológico dos autores. Gerald Bär mencionou ainda o exemplo de E.T.A. Hoffman e frisou que, mais do que perceber se o Doppelgänger é uma estratégia de escrita ou sintomático de uma patologia mental, o importante é o conteúdo das obras e a capacidade do leitor para delas desfrutar.
Seguiu-se um visionamento de um vídeo sobre o tema, após o que os presentes foram convidados a intervir naquela que foi uma frutífera discussão sobre o conceito Doppelgänger.
O investigador explicou que o encontro com o Doppelgänger poderá, ou não, ser assustador, sendo que a maior parte das vezes não é recebido como algo positivo. Numa explicação freudiana do fenómeno, o Doppelgänger surge como a repressão do eu, sendo que o encontro com o eu reprimido poderá causar alterações na personalidade do sujeito. Além disso, o orador explicou que a fantasia de fragmentação não tem que se restringir a uma figura dupla, mas poderá ser tripla ou mais, sendo que a fragmentação múltipla se tornou comum na literatura modernista.
Por último, falou-se de casos em que o Doppelgänger consome ou toma posse do sujeito, como no caso de David Bowie e Ziggy Stardust, e da inexistência de duplos femininos até meados do século XX.

Mafalda Duarte Barrela

(aluna do 1º ano do Mestrado em Estudos de Cultura)

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