Field Work do CECC: síntese 3

dsc_1614dsc_1604

Gonçalo Pereira Rosa na sua apresentação intitulada “A Gripe e o Naufrágio. Como se constroem as notícias de risco” explica como as notícias de risco surgem na comunicação social, exemplificando com o caso da pandemia da Gripe A em 2009 e com o do naufrágio do navio petroleiro Prestige na costa galega e que afetou o norte de Portugal em 2002.
O investigador começa por referir vários autores que apontam para a inevitabilidade dos desastres e como falhas na comunicação podem gerar ansiedade coletiva e desconfiança nos decisores e peritos (Beck), a falta de reconhecimento de riscos imprevisíveis relacionada com o dogma da infalibilidade (Giddens), e a importância do ciclo de atenção para a política de agendamento (Downs).
Gonçalo Pereira Rosa aponta ainda para a ocorrência de um pós-problema depois da saturação do tema, o quando surge um acontecimento catastrófico posterior, dando como exemplo o caso do Prestige, retomado quando ocorrem novos naufrágios.
Neste caso em particular, a baixa taxa de acidentes leva a uma falsa sensação de segurança. O acontecimento foi notícia durante três meses, apresentando uma forte concentração temporal. Por oposição, no caso da pandemia de gripe A, a perceção é crítica e cética, uma vez que esta representa uma ameaça invisível, ocorrendo a construção de risco de forma mais gradual.
Neste projeto, o investigador Gonçalo Pereira Rosa explora as questões de agendamento, ou seja, quem influencia e como evolui a notícia. Em segundo lugar, é realizada uma análise de construção de desastres. Num terceiro momento, avalia-se a existência de diferentes procedimentos de objetividade. Por exemplo, no caso da gripe A, existiu um grande autocontrolo na espetacularização da dor. A discordância entre especialistas é igualmente motivo de investigação – no caso do Prestige, a ciência conseguiu apenas assumir-se como relevante na parte final do ciclo noticioso. Além disso, a narrativa de responsabilização surge mais no caso do naufrágio do que no da gripe. Uma outra conclusão é a de que a proximidade afeta a notícia. Mais, é forçoso olhar para a combinação de texto, imagem e vídeo. Se o texto, por um lado, pode gerar invisibilidade do tema, a imagem pode surgir como representação simbólica da situação em causa, por exemplo, o uso de máscaras aquando do surto de gripe.
O caso do Prestige foi agitado por notícias nos primeiros dois meses. Neste caso, existiu um forte envolvimento dos decisores políticos, tendo o governo galego sido fortemente criticado.
No caso da gripe A, por oposição, os meios de comunicação social anteciparam a tragédia, diminuindo o número de notícias aquando do pico de seriedade da doença.
Concluindo, Gonçalo Pereira Rosa afirma que as notícias de risco são construções sociais da realidade negociada entre agentes sociais.
Na discussão deste projeto, o Professor Miguel Tamen, destacou a negociação da realidade enquanto questão filosófica e a questão da relação entre media e realidade.
Na apresentação “Media digitais e direitos: um estudo com jovens com cancro”, Ana Jorge começa por explicar a solicitação da Acreditar – Associação de Pais e Amigos de Crianças com Cancro, uma organização não-governamental que visa apoiar as crianças que sofrem da doença, devido à preocupação com casos mediáticos de crianças com cancro e questões da privacidade das mesmas. Nestes casos, os meios tradicionais e as redes sociais reforçam-se e o impacto da doença tem tomado contornos que não têm sido notados em momentos anteriores. A privacidade das crianças nem sempre é respeitada, ocorrendo, por vezes, tensões entre interesses de famílias que procuram apoio financeiro e a sua privacidade. A investigadora frisou a natureza exploratória da pesquisa, efetuada conjuntamente com Lidia Marôpo (CICS-NOVA), tendo realizado três grupos de foco com crianças com mais de 12 anos.
Na sua apresentação, Ana Jorge aborda ainda o direito ao acesso de conteúdos de qualidade por parte das crianças e outros, como o direito à remoção de conteúdos, direito a saber, direito à segurança, direito ao uso consciente e informado e, por último, direito à literacia digital.
O uso dos media digitais surge pela falta de conteúdo interessante nos media tradicionais e pela necessidade de comunicar, por exemplo, através de redes sociais, uma vez que estas permitem manter contacto com amigos quando regressam aos seus contextos de origem.
Uma outra utilização dos meios digitais prende-se com a procura de informação médica, que gera ansiedade na criança e desconfiança na capacidade dos médicos que acompanham o processo.
Outra questão levantada por Ana Jorge é da privacidade, sendo que muitos dos jovens se mostram relutantes em partilhar imagens e informação sobre a doença em redes sociais como o Facebook. Contudo, estas servem também o propósito de angariação de fundos ou apelos à doação de medula óssea, por exemplo.
Na discussão que se seguiu, o Professor Michael Hanke, falou da necessidade de trabalho ativista sobre os direitos das crianças e da inserção da educação para os media nos currículos escolares.

Mafalda Duarte Barrela

(Aluna 1º ano Mestrado Estudos de Cultura)

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s