Field Work do CECC: síntese 2

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Na sua apresentação intitulada Poéticas de Formação, o investigador Jorge Vaz de Carvalho discutiu o romance de autoformação, ou Bildungsroman, na literatura portuguesa, definindo-o como “obra sobre rituais de passagem do protagonista num processo autónomo de aprendizagem cívica e espiritual de forma a definir o seu lugar harmónico no mundo”. Neste caso, pretende-se a análise de romances portugueses de novecentos, sendo que o conceito de Bildungsroman é evolutivo e a qualificação de um romance como tal é independente do sucesso ou fracasso do protagonista no processo de autoformação.
Foram identificadas três fases evolutivas neste tipo de romance: preservação do otimismo original e início da metamorfose do sujeito; a necessidade de inserção social a qualquer custo que corrompe a ambição original; e, por último, a desilusão do indivíduo com a civilização.
Em Portugal, a questão da autoformação não era considerada, nunca tendo despertado interesse, por exemplo, em Almeida Garrett. As características do Bildungsroman surgem pela primeira vez n’A Capital! de Eça de Queiroz, sendo sabido que a educação tem um papel importante na ficção queirosiana, como é exemplo o caso d’Os Maias. Assim, A Capital! será o romance mais próximo da segunda fase do Bildungsroman, associada aos romances pós-napoleónicos e à ideia do arrivista. Nesta obra de Eça, Artur Corvelo passa por todas as experiências associadas à grande cidade de Lisboa mas não aprende nada por não ter a capacidade intelectual para tal. O protagonista volta à província com o desejo de retornar a Lisboa, a cidade corrupta, infecta, o que representa uma clara oposição aos romances franceses. Neste caso, a educação dos pais e a instrução em Coimbra inibem Artur de obter um resultado positivo no seu sucesso de autoformação.
Um outro conhecido exemplo é o de Nome de Guerra de Almada Negreiros, escrito no ano de publicação d’A Capital!, romance modernista classificado como romance de aprendizagem. O protagonista, o Antunes, surge numa situação de conflito entre fragmentação e unidade da sua própria identidade. A personagem é vítima de intervenção alheia na sua vida, quer pela parte dos pais, quer pela parte de mentores. Nas suas aventuras de descoberta e experimentação, o eu individual consciencializa-se. No romance, Antunes renasce três vezes. Na terceira, no sentido de repor a sua ligação com o universo, procura libertar-se de todas as perturbações alienantes. No momento em que encontra a sua autonomia, a Bildung de Antunes encontra-se no bom caminho.
O investigador adianta ainda que pretende distinguir Bildungsroman de outros processos de formação e analisar outros romances portugueses à luz desta discussão.
Nos comentários finais é de salientar o debate sobre as fronteiras difusas entre romances de autoformação, educação e desenvolvimento e o enquadramento da obra Emma de Jane Austen.
Joana Meirim discutiu na sua apresentação Poetas Modestos trabalho realizado na área da literatura com implicações na área da filosofia moral. O título paradoxal reage à ideia do poeta romântico e do culto de personalidade. A modéstia autêntica, de acordo com a investigadora, tem implicações éticas e estéticas e não pode ser considerada um mero artifício de retórica.
As implicações da modéstia acontecem não só no que diz respeito à moderação dos desejos e aspirações, mas também à sobriedade estilística. Harold Bloom, que defende a ideia do poeta forte, critica um dos poetas modestos indicados por Joana Meirim, Jorge Luis Borges, por sofrer de idealismo literário. O seu projeto, diz também poderá padecer do mesmo tipo de idealismo por pretender pacificar relações polémicas.
A investigadora inclui na sua família de poetas modestos, para além de Borges, Philip Larkin, Alexandre O’Neill e Manuel Bandeira. Estes poetas têm em comum a elevação da modéstia a tópico de vida e obra, mas divergem no tom da mesma. Assim, esta pode encontrar-se na redução de expectativas, na dicção deflacionária, discurso de auto-depreciação, no recusatio e favorecimento de temas geralmente vistos como menores e no refreamento da hybris.
No caso de Borges, a modéstia percebe-se no seu discurso de auto-depreciação e na rejeição da importância da reputação póstuma. Defende que o anonimato é uma forma de preservar autenticidade.
Na poesia de Philip Larkin a existência de uma middlebrow muse associada ao tema do provinciano que é vista negativamente. Neste caso, o privilégio de assuntos menores é evidente. O poeta apresenta igualmente uma dicção comedida, sendo a auto-depreciação também notada. A fobia de aparição pública, a discussão dos seus defeitos físicos e poéticos e a redução da expectativa relativamente à sua obra são igualmente características deste poeta modesto.
O grande poeta da “modéstia portuguesa”, Alexandre O’Neill, possui reservas quanto àquilo que produz e nota a sua falta de preparo. Além disso, o poeta português partilha semelhanças com a modéstia de Larkin. Na sua obra, O’Neill faz a apologia da modéstia, como é o caso da crónica “Desaprender”. Nesta, frisa que o poeta é um “derrotado à partida”.
Por último, Manuel Bandeira foi indicado por O’Neill como um “grande poeta menor”. Ambos partilham uma dicção comedida e tal como os restantes realiza um discurso auto-depreciativo, tanto nos seus poemas como no texto autobiográfico “Itinerário de Pasárgada”.
Na discussão dirigida pelo Professor Michael Hanke, surgiram questões relativamente à autodenominação dos poetas modestos e a diferença entre humildade e modéstia.

Mafalda Duarte Barrela

(Aluna 1º ano Mestrado Estudos de Cultura)

 

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