Field Work do CECC: síntese 1

No passado dia 3 de Novembro decorreu a sexta edição do Fieldwork, uma reunião anual dos investigadores do CECC para apresentação de trabalho realizado dentro das três linhas de investigação. O evento contou com apresentações dos investigadores Luísa Santos, Jorge Vaz de Carvalho, Gonçalo Pereira Rosa, Peter Hanenberg, Ana Jorge e Joana Meirim, com comentários dos Professores Miguel Tamen e Michael Hanke.Nos próximos dias, iremos publicar, em três partes, uma síntese do encontro.

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A investigadora Luísa Santos começou por apresentar o projeto 4Cs | From Conflict to Conviviality through Creativity and Culture, que está a ser desenvolvido em 8 países e pretende perceber como instituições artísticas e culturas podem ter um papel interventivo em situações de conflito e pós-conflito e como podem a cultura e a criatividade produzir um discurso crítico em situações como, por exemplo, o problema dos refugiados.
A ambição mais geral do projeto é a de chegar a uma Europa melhor, analisando o conflito em três esferas: política, relações sociais e relações humanas.

O projeto de âmbito internacional e que se candidata a fundos europeus inclui parcerias com diversas instituições nacionais e estrangeiras, incluindo Tensta Konsthall, SAVVY Contemporary, Royal College of Art, Fundació Antoni Tàpies, Museet for Samtidskunst, ENSAD e Vilnius Academy of Art. Os parceiros locais incluem Culture + Conflict, MIMA, Klaipèda University, Gulbenkian Foundation, Rua das Gaivotas 6 e Plataforma de Apoio aos Refugiados.”
As prioridades do projeto incluem “Training and Education” e “Audience Development”, sendo o objetivo principal a criação de diálogo entre culturas, para o qual contribuirão a existência de uma summer school, um filme com curadoria externa, cinco conferências, cinco workshops, laboratórios de mediação (de que é exemplo o projeto Silent University), 14 residências artísticas e uma plataforma online.
Durante a discussão, conduzida pelo Professor Miguel Tamen, foram levantadas questões relativamente a Audience Development e instrumentalização de agentes culturais, e sobre o papel da tradução na produção de conhecimento num projeto de âmbito internacional.
Na apresentação “Plasticity and resilience in brain and culture. A cross-disciplinary approach to memory studies” o investigador e director do CECC Peter Hanenberg falou da interseção entre neurociências e estudos de cultura no que diz respeito a estudos de memória, tendo sido convidado por Susan Nalbantian para co-editar um volume sobre o tema.
O argumento principal é o de que o cérebro e a cultura coexistem e tentam corresponder. Quando tal não acontece, existem apenas duas possibilidades – mudar a realidade externa, ou seja, o mundo, ou mudar a mente. Assim sendo, a cultura poderá ter grandes impactos no desenvolvimento de estruturas e processos cerebrais – por exemplo, o cérebro de um pianista será diferente do de um violinista.
O investigador descreve então como cultura se pode dividir em três dimensões, nomeadamente material, social e imaterial. Tanto a cultura material como a imaterial tendem a ser estáveis, sendo a força instigadora de mudança a componente social. Um exercício paralelo acontece no cérebro, em que dois dos elementos que o compõe, nomeadamente conceitos e processos tendem a ser estáveis, mas que são moldados pelas nossas experiências e perceções. No geral, na atividade cerebral existe uma resistência à mudança sendo que, uma vez ultrapassada essa resiliência, ocorre uma aprendizagem. Esta plasticidade do cérebro é o que o permite ao ser humano aprender.
Peter Hanenberg reforçou ainda a ideia de como estudos literários podem ser um input para a compreensão do cérebro e apresentou 3 exemplos, incluindo uma passagem da obra Erdbeben in Chili (1807) de Heinrich von Kleist, em que se demonstra o uso da linguagem como forma de contrariar a estabilidade atrás mencionada, sendo o subjuntivo a expressão linguística da plasticidade cerebral. Com base num artigo de Kiefer & Pulvermüller (2012), Peter Hanenberg comentou a teoria da “incorporação”, ou seja, o facto de o pensamento não estar apenas na nossa mente, mas também no corpo, rejeitando assim a igualdade entre o cérebro e inteligência artificial. Neste sentido existe uma atividade cerebral comum entre, por exemplo, a ação de correr ou o uso do verbo “correr”. Por último, o texto “Essay on the Successful Day” de Peter Handke vem reforçar o ponto prévio.
Por último, o investigador referiu a existência de cinco tipos diferentes de memória que se complementam e que contribuem para que a resiliência e aprendizagem se relacione com o fenómeno de incorporação, intimamente ligado com o conflito entre plasticidade e estabilidade cerebrais.
Nos comentários pelo Professor Michael Hanke discutiram-se as limitações das neurociências culturais, as relações entre ciências cognitivas e humanidades e o uso do subjuntivo.

Mafalda Duarte Barrela

(Aluna 1º ano Mestrado Estudos de Cultura)

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