‘Failure, Design and the Globalisation of Risk’: a palestra de Arjun Appadurai por ocasião dos 25 anos da Refundação da FCH

No passado dia 29 de Novembro, a Universidade Católica Portuguesa recebeu o Professor Arjun Appadurai para a celebração dos 25 anos da refundação da Faculdade de Ciências Humanas, numa palestra intitulada “Failure, Design and the Globalisation of Risk”.
Appadurai é atualmente professor Goddard de Media, Culture and Communication na New York University e Senior Fellow no Institute of Public Knowledge. O seu trabalho na área das teorias cultural e social é de extrema relevância para a compreensão do fenómeno de globalização através de diferentes perspetivas, nomeadamente económica, migratória e cultural. É de frisar o seu papel enquanto fundador e presidente do programa “Partners for Urban Knowledge Action and Research”, em Mumbai, e a publicação de livros como Modernity at Large: Cultural Dimensions of Globalization (1996), Fear of Small Numbers: An Essay on the Geography of Anger (2006), The Future as Cultural Fact: Essays on the Global Condition (2013) e Banking on Words: The Failure of Language in the Age of Derivative Finance (2015).
Na sua palestra, o Professor Appadurai começou por explorar o tema do fracasso, afirmando que é algo frequentemente experienciado pelo ser humano. A linguagem para o descrever está presente em todas as culturas, quer seja referente a pequenos incidentes ou questões mais complexas. No geral, existe uma noção de que fracasso é algo natural, estando esta ideia bastante enraizada na sociedade. Contudo, para o orador, a ideia de fracasso permanece um mistério. Enquanto conceito depende do parecer humano, que se relaciona naturalmente com pressupostos, preconceitos, cultura, relações e poder. Assim, é imperativo colocar questões como quem decide o que é fracasso, quem fracassa ou sobre que aspetos este recai. Deste modo, fracasso é um fenómeno cultural, formado por suposições e mensurações culturais, cuja variabilidade é de extrema complexidade devido a fatores como globalização, tecnologia, moralidade, história e os diferentes ramos do conhecimento como filosofia, economia, design, sociologia ou política.
Existe ainda a noção de que resultados fracassados podem ser interpretados como desenvolvimento ou progresso. A teoria de destruição criativa do economista Joseph Schumpeter é proeminente no ocidente pós-industrial, onde fracasso é considerado uma forma de progresso tecnológico e inovação. Deste modo, o sistema capitalista como um todo gera fracasso, criando desemprego, exclusão social e danos ambientais. Contudo, o “poder suave das políticas de desenvolvimento global” disseminadas por instituições tais como o FMI ou o Banco Mundial escondem os custos sociais e mascaram o fracasso. O design do fracasso é, assim, um conceito moderno, cujo processo é definido por um “loop fechado”, em que o fracasso é tido como algo externo.
Num segundo momento, Appadurai abordou o tema de design e tecnologia, focando-se na adaptação e mudança do sistema linguístico num contexto em que o consumidor é colocado num ensaio, num teste ao fracasso. Alguns exemplos pertinentes incluem o uso de palavras como mining, user, printing, code, searching, e liking, em que a nova definição, facilmente divulgada e adotada, esconde significados antigos, sem deixar de os evocar e subverter, contribuindo para a vulgarização dos mesmos. Assim, estas alterações linguísticas contribuem para mudanças culturais no que diz respeito a conceitos de escala, visibilidade e individualidade.
Em primeiro lugar, as dimensões espácio-temporais têm sido hierarquizadas e previsíveis no seu aumento ou decréscimo. Contudo, hoje em dia, estas escalas são cada vez mais complexas devido a aspetos de conectividade e colapso de fronteiras, por exemplo, entre o eu e a máquina, entre finanças e saúde, entre corpo e aplicações. Mais, a extensão do ser humano a componentes remotas e virtuais torna-o semelhantes a “nódulos de um sistema”.
No que diz respeito à dicotomia visibilidade e invisibilidade, Appadurai explica que as novas tecnologias e ferramentas cujo design nos parece secular por natureza estão agora ligados a ideias utópicas, assemelhando-se mais a noções religiosas. As negociações entre o visível e o invisível ocorrem, assim, ao nível dos nossos ecrãs que moldam o nosso contexto e servem como interface para o mundo.
O orador continua fazendo referência à ideia moderna de indivíduo formada por novas ferramentas e que se relaciona com os conceitos de agência, valores, personalidade, escolha e liberdade. Os “individuals” passam a ser “dividuals” – agentes que se alteram, fundem e relacionam, caracterizando-se por uma elevada fluidez. Assim, cada pessoa terá padrões de migração próprios, um histórico de crédito e/ou seguro de saúde, sendo estas partes de nós que são agregadas e escolhidas consoante o interesse de outros agentes, como mercados ou governo, tendo o orador intitulado este processo de desindividualização.
Por último, Arjun Appadurai falou de risco e globalização, focando-se no mercado financeiro de derivados, que representa cinco a seis vezes o valor do PIB mundial. A monetização do risco, o desenvolvimento de instrumentos financeiros e monitorização, securitização e ativação de componentes da vida humana gera dívida, o que, consequentemente, cria excedente de capital. A dívida alimenta o mercado financeiro, ou seja, o sucesso económico depende da nossa existência enquanto portadores de risco. É de frisar duas perspetivas: a primeira relacionada com a invenção do risco e consequente importância para a ciência, política governamental e ações do quotidiano no geral; e em segundo a noção de que se pode lucrar com o risco, de que este pode ser calculado e de que a redução do mesmo pode ser adquirida, por exemplo, através de seguros.
As ferramentas que gerem a alocação do excedente, uma criação ocidental, geram desigualdade. Áreas como Índia ou alguns países de África que não sofreram muito com a crise bancária de 2007 tentam agora afastar o uso destas ferramentas, que servem os interesses de uma minoria poderosa. Assim, existe uma questão política e social a ser colocada – como será possível resistir às pressões que geram esta desigualdade?
Appadurai termina afirmando que o afastamento do mercado financeiro não é a solução. Sugere alternativamente uma entrada no mercado de derivados por decisão civil, ou seja, uma democratização do mesmo. Na prática, propõe a existência de cooperativas locais que contribuirão e receberão um certo montante em troca. Argumenta ainda que, no geral, existe um medo do mercado financeiro associado a um mito de complexidade construído por linguagem e perceções e que funcionam como barreira à entrada, mas que a “reapropriação social do mercado financeiro” é algo a considerar.
Na discussão que se seguiu, levantaram-se questões sobre a viabilidade da solução proposta pelo orador, sobre a relação entre fracasso e o crescimento do populismo no ocidente e sobre o papel da cultura neste contexto.

Mafalda Duarte Barrela

(Aluna 1º ano Mestrado em Estudos de Cultura)

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