Um olhar sobre a conferência de Irit Rogoff

A Universidade Católica Portuguesa teve orgulho de receber, no passado dia 12 de Outubro, Irit Rogoff, professora na área de Cultura Visual na Goldsmiths, University of London, numa apresentação intitulada “The Way We Work Now”. A palestra foi organizada pelo Diffractions como parte da série “Creative Knowledge Practices”, contando com o apoio do CECC e do The Lisbon Consortium.

Aclamada teorista crítica, Irit Rogoff é uma das criadoras do ramo transdisciplinar de Cultura Visual, comummente definido como o ponto de encontro entre práticas criativas contemporâneas, política e filosofia. Especificamente, a escritora, curadora e professora revela interesse em práticas participativas, geografia, counter cartography e globalização. De momento, leciona a disciplina “Globalisation” no MA em Contemporary Art Theory, o M.Res em Curatorial/Knowledge e programas de doutoramento, sendo a coordenadora do Ph.D em Visual Culture na Goldsmiths, University of London.

Em “The Way We Work Now”, a oradora começou por ler excertos do livro que deu nome à sessão, no sentido de discutir o conceito de permissões e a diferença entre curadoria e práticas curatoriais – the curatorial. Nos seus comentários referiu que discorda do cenário neoliberal de conhecimento e que o encontro das humanidades com a prática possibilita a realização de trabalho de forma diferente. Exemplo de tal é o curatorial, cujo potencial afirma apenas ter descoberto recentemente. Temas como este são explorados no seu livro ao longo de seis capítulos, no qual Irit Rogoff, nas palavras da própria, em vez de ‘fetichizar’ os artistas, escritores e filósofos, lhes concede o espaço para falarem por si mesmos. Menciona ainda que permissões são concedidas para a invenção de novos temas e para revisões concetuais, frisando dois pontos importantes relativos ao assunto: conhecimento académico e novas práticas criadas. Na verdade, afirma, o modelo de conhecimento adquirido, inherited knowledge, em que tanto o conteúdo como quem o cria possuem igual valor, está um tanto ultrapassado. Em alternativa, o trabalho é realizado nas condições que vivenciamos, por exemplo, a falência da banca e a precariedade, frutos da doutrina neoliberalista. Irit Rogoff critica ainda o cinismo dos programas de practice-based research, em que as instituições utilizam a oportunidade como forma de obtenção de recursos, humanos ou capital, e não para reconhecer as bases em que a investigação académica poderá ocorrer. Irit Rogoff frisou ainda a noção de fugitive study, em que a produção de conhecimento acontece em locais como universidades mas não dentro dos parâmetros formais dos conteúdos curriculares. É, assim, um convite à criatividade e espírito inventivo, à debilitação de hierarquias e à valorização da produção do conhecimento fora dos moldes tradicionais.

O conceito de curadoria versus o curatorial surge, durante a palestra, neste âmbito. Os curadores são, assim, mais que meros organizadores de exibições, mas produtores de conhecimento; são responsáveis pela sua agregação e exposição sob um determinado conceito. A autora afirma que o curatorial explora o que acontece nesse “palco”, tanto de forma propositada como acidental. Os objetos artísticos tomam, então, um papel ativo na narrativa apresentada, de que são exemplo, referiu, os estudos coletivos que acontecem na esfera pública e não no mundo académico.

Um projeto que se pode enquadrar nesta definição é o freethought pela Bergen Assembly, apresentado na segunda parte da palestra e no qual Irit Rogoff participa ativamente. O projeto trienal, com sede na Noruega, é organizado por seis investigadores. O coletivo tem-se focado no conceito de “infraestrutura”, um termo que é, segundo a oradora, “desagradável e mal-amado, apenas apreciado por planeadores e tecnocratas”. À partida, não se reconhece nenhum tipo de discurso crítico ao termo. Contudo, o grupo defende que, à semelhança da mão invisível de Adam Smith, a infraestrutura “surge como a força invisível da cultura manifesta hoje em dia.” A este nível, infraestrutura é sinónimo de progresso e facilita operações culturais como o surgimento de museus, o patronato e as parcerias, atividades explicadas pelo desejo crescente de experiências culturais. Irit Rogoff exemplifica com o caso do Guggenheim, que não tendo espaço para armazenamento da sua vasta coleção, iniciou um processo de franchising. Em freetought, o termo “infraestrutura” é dissecado e estudado através de seminários, palestras com oradores convidados, uma plataforma online, um simpósio, o Partisan Café, um livro e outras exposições. Alguns dos projetos foram apresentados durante a sessão, incluindo o Museum of Burning Questions e Infrastructure of Feeling.

Previamente à abertura de discussão com o público, Irit Rogoff terminou frisando a importância de iniciar uma conversa sobre as diferentes perspetivas em que poderemos ser considerados produtos de infraestruturas. Numa apresentação caraterizada pela sua densidade, riqueza e novidade, a conferência proporcionou uma nova lente não só para análise da produção de conhecimento, mas também para a compreensão do mundo contemporâneo

Mafalda Duarte Barrela 

(Aluna 1º ano Mestrado Estudos de Cultura)

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