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Coffee break de Outubro: A propósito de Vilém Flusser

 

No passado dia 18 de Outubro, retomou-se a iniciativa CECC Coffee Breaks, que segue para a sua 6ª edição, com uma apresentação sobre o filósofo Vilém Flusser dos investigadores Fernando Ilharco, doutorado em Information Systems pela London School of Economics (LSE), e Élmano Souza, doutorando em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa.
Fernando Ilharco começou por falar na vida e obra do autor, referindo que este “tem o seu quê de mistério e diferença na experiência humana da vida”. Vilém Flusser nasceu em Praga em 1920, onde iniciou o estudo de filosofia. Devido à ocupação nazi, altura em que perdeu grande parte da família, tem uma breve passagem por em Londres, onde continua os estudos na LSE. Em 1940, muda-se para o Brasil, país onde vive durante grande parte da sua vida. Segundo Fernando Ilharco, é então que Flusser começa a escrever e pensar em português, considerando o ser brasileiro a sua primeira identidade. Nos anos 70 deixa o Brasil e passa uma temporada em França, para regressar a Praga em 1991 onde acaba por falecer num acidente de carro.
O autor poliglota escrevia regularmente em alemão, aquela que considerava a sua língua de trabalho, e português. Flusser, segundo o orador, é um nómada e apátrida do conhecimento, o que é exemplificado pela obra “Filosofia da caixa preta”, publicada naquelas duas línguas. A caixa preta surge, no sentido literal, como a câmara fotográfica, e no sentido metafórico como os media, as tecnologias e a cultura mediática no geral. Em Língua e Realidade, o autor explora como os distintos grupos linguísticos constroem realidades e tempos diferentes. Outras obras mencionadas pelo orador incluem O Universo das imagens técnicas, Vampyroteuthis Infernalis, Uma filosofia do Design, Writings, sendo esta uma coletânea dos seus textos traduzidos para inglês”, Flusseriana, uma enciclopédia dos termos de Flusser, A Escrita: há futuro para a escrita?” e Fenomenologia dos gestos.
Fernando Ilharco introduziu ainda o conceito das três catástrofes, que Flusser define como momentos de rutura imprevisíveis. A primeira refere-se à descida do primata para a savana, o que lhe confere um caráter nómada. Na segunda catástrofe, o homem corta com o nomadismo para dar lugar ao sedentarismo. Numa reflexão muito teórica e especulativa, Flusser fala metaforicamente em “paredes”, que o homem constrói em seu redor. A terceira catástrofe, que agora experienciamos, é, afirma, a catástrofe sem nome, em que o mundo não é parado por paredes e o homem surge como nómada informacional e comunicacional. A história, segundo Flusser, está dividida em três períodos: a pré-história, a história e a pós-história. Existe uma certa dialética entre os três momentos, sendo que a história começa com a escrita e no terceiro momento a escrita é acelerada porque tem sucesso. Assim, os livros transformam-se em ciência que se transforma em software que culmina em imagens técnicas.

Após uma leitura e breve análise de excertos de A Escrita: há futuro para a escrita?, Élmano Souza explicou o conceito-chave de “abstração” na obra de Flusser. Começou por definir comunicologia, a teoria da comunicação que, nas palavras do autor, é um metadiscurso de todas as comunicações humanas de tal forma que este poderá ser utilizado para enfatizar as estruturas das mesmas, tendo este termo levado à inserção do seu trabalho no ramo da filosofia. Frisou ainda a relevância dos “códigos” na filosofia do autor, expressão utilizada transversalmente para se referir a pinturas rupestres, novos media ou mesmo o gesto humano. Dentro do gesto humano inclui-se, por exemplo, falar, escrever, plantar, decifrar e significar, sendo o último uma atividade humana, quotidiana e permanente. Assim, a comunicação está dependente da mediação destes códigos, que Flusser estrutura em quatro abstrações. A primeira abstração é referente à objetivação do mundo, que aqui é transformado em circunstância, e subjetivação do homem. O homem afasta-se da realidade tridimensional, palpável, que se distingue pelo gesto de manipular. O segundo gesto de abstração é a visão, caracterizado pela sua bidimensionalidade, em que a circunstância imaginada representa o mundo. Com o surgimento da escrita, surge uma terceira abstração, unidimensional, ocorrendo assim a consciencialização e historização do mundo. Deste modo, basta ao homem o gesto de concetualizar para perceber o mundo, o universo contável. Por último, a quarta abstração refere-se ao gesto de calcular. Surgem as imagens técnicas, que não fazem mais referência à circunstância, que resultam da desintegração do mundo em pontos zero-dimensionais, e cuja agregação permite uma nova atribuição de significado à mediação. Nesta situação, existe o risco de o homem utilizar o programa, o software, mas não compreender o seu mecanismo. Assim, na 4ª abstração, Flusser receia que o homem não entenda o funcionamento interno da “caixa preta”.
Nesta linha de pensamento, o investigador Élmano Souza terminou com um alerta, citando o aforismo grego “Conhece-te a ti mesmo”, pretendendo com isto frisar que a compreensão do lugar do homem no mundo o ajuda a melhor comunicar.
O próximo Coffee Break ocorrerá no dia 2 de Novembro, com a investigadora Rosário Lupi.

 Mafalda Duarte Barrela

(aluna 1º ano do Mestrado em Estudos de Cultura)

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