Bill Fontana, o artista que não gosta de barulho

DSC_1263.JPG

 

Bill Fontana, o artista de São Francisco reconhecido pelas suas experimentações com som, foi o orador convidado da sessão inaugural do ano académico 2016/2017 do The Lisbon Consortium, que teve lugar no Centro Cultural de Belém no passado dia 30 de Setembro.

Numa apresentação que foi eclética em media, rica em conteúdo e catalisadora de discussão, Fontana apresentou alguns dos seus trabalhos passados e vindouros, nomeadamente um projeto envolvendo a Ponte 25 de Abril.
Fontana começou por mencionar que, nos primórdios da sua carreira, enquanto jovem compositor, a leitura e escrita de música requeriam um determinado estado de espírito a que aspirava enquanto passeava, prestando atenção ao mundo e sons que o rodeavam. Nas palavras do próprio, “… quando me sentia musical, também os sons à minha volta se tornavam musicais.” Estas primeiras experiências, datadas dos anos 60, eram investigações de campo sobre como momentos sonoros provenientes do ambiente envolvente do sujeito são dotados de musicalidade.
A inspiração para criação de esculturas musicais proveio de Marcel Duchamp. Durante a apresentação, Fontana recordou a primeira vez que viu uma obra do artista reconhecido por introduzir os objets trouvés como forma de arte. Foi, então, uma pequena nota no caderno The Green Box (cuja existência pretendia evitar interpretações meramente visuais da icónica obra La mariée mise à nu par ses célibataires, même) que suscitou o interesse deste autor. Nesse pedaço de papel ler-se-ia: “Escultura Musical. Sons que duram e abandonam locais diferentes e formam uma escultura musical que permanece”. Estas esculturas musicais são experiências de som imersivas, resultantes das gravações ao longo dos anos, algumas das quais foram apresentadas pelo artista na sessão.

A primeira obra apresentada por Fontana data de 1976, quando este se encontrava em Sidney, na Austrália. A Australian Broadcasting Corporation comissionou-lhe um trabalho que consistia em gravar os sons do país, fornecendo-lhe acessos a recursos tecnológicos ilimitados. Um dos projetos incluiu a gravação, utilizando oito canais diferentes, de um pontão de betão flutuante em Kirribilli Wharf. A escultura sonora foi, mais tarde, instalada numa galeria de arte utilizando oito altifalantes – experiência esta recriada durante a sessão.
O projeto posteriormente apresentado, Entfernte Züge (Distant Trains), foi uma obra de arte pública desenvolvida em 1984. Fontana mencionou as suas experiências com a recolocação de som, que basicamente implica a sua gravação e recontextualização, naquela que era uma das mais atarefadas estações de comboio da Europa antes da II Guerra Mundial, a Anhalter Bahnhof. Os sons eram provenientes da estação que, atualmente, desfruta dessa agitação, a Köln Hauptbahnhof. O artista explicou ainda que este foi um projeto interessante da perspetiva de interação entre memórias e som, pelo peso e conotação do espaço envolvente. Fontana ainda constatou a dificuldade de realização deste projeto devido à necessidade de obtenção de licenças para gravação, recorrendo para tal à ajuda de John Cage, com quem estudou, e que lhe apresentou um produtor que com ele colaborou.
Ao longo da sessão, Fontana mostrou outros projetos, nomeadamente Sonic Mappings, presente permanentemente no MAXII em Roma, Linear Visions no OK Centre for Contemporary Art em Linz, Desert Soundings no Abu Dhabi Festival 2014, Speeds of Time no Tate Britain em 2008 e Harmonic Bridge na Turbine Hall do Tate Modern em 2006.
O artista enfatizou ainda as gravações da Ponte Golden Gate em São Francisco aquando da ocasião do seu 75º aniversário. Esta instalação diferencia-se das restantes na medida em que foi a primeira com uma componente de vídeo, gravado num local da ponte inacessível à população.
Para terminar a apresentação, Fontana contou ainda que está a realizar um projeto semelhante na Ponte 25 de Abril, em Lisboa, por ocasião da inauguração do novo Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT). Duas câmaras foram colocadas na ponte, uma no topo da mesma, junto aos grandes cabos suspensos, e a segunda entre a plataforma para carros e a plataforma para comboios.
No final, os presentes tiveram o privilégio de visualizar e ouvir um pouco deste recente projeto, numa sessão que teve tanto de inspiradora como educativa.
Registe-se uma nota final do artista que diz que rejeita a palavra “barulho”, uma vez que o ser humano pode escolher ser importunado por um som ou apreciá-lo pela sua efemeridade.

Mafalda Duarte Barrela

(aluna 1º ano Mestrado em Estudos de Cultura)

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s