Novo livro de Rui Brás sobre a obra de Tarkovsky

capa Tarkovsky

 

O livro ‘Tarkovsky: A memória das origens em Nostalgia e O Sacrifício‘ resulta da tese de doutoramento de Rui Manuel Brás sobre a obra do cineasta russo. Editado pela Universidade Católica Editora, na colecção ECC-Estudos de Comunicação e Cultura/Art, Culture, Citizenship, a obra é apresentada pelo autor na introdução, onde descreve a estrutura do  trabalho.

Este livro é uma versão ligeiramente alterada da tese de Doutoramento em Estudos de Cultura que realizei na Universidade Católica Portuguesa sob a orientação da Professora Doutora Isabel Capeloa Gil. Com esse trabalho pretendi dar uma nova perspetiva da obra de Andrei Tarkovsky, com especial incidência nos dois últimos filmes, os que foram realizados no exílio, Nostalgia e O Sacrifício, considerados por Johnson e Petrie como um díptico (Johnson, 1994: 170). Através da sua análise procurei estudar a relação do homem submetido à condição de exílio com a sua pátria e o modo como a memória das origens está presente na construção dos derradeiros filmes de Andrei Tarkovsky. Forçado a exilar-se nos primeiros anos da década de 80 do século passado, realizou dois filmes onde o tema da memória, sempre presente na sua obra, se conjuga com a problemática do desenraizamento e da forma de lidar com o trauma da perda da pátria. Na minha perspetiva, ambos os filmes refletem a dificuldade de Tarkovsky em aceitar a rutura com as origens, condição essencial para fazer o luto e abrir um novo caminho para a sua vida e reafirmam a solidez dos laços que o uniam a uma Rússia imaginada em cuja construção a memória cultural, entendida individual e coletivamente, desempenhou um papel fundamental.

O livro está dividido em três partes: a primeira, intitulada “Agón: o pesado fardo do exílio”, a segunda, “Pathos: Memória, trauma e exílio” e a terceira “Katharsis: Sacrifício”. A primeira parte deve o seu título a uma referência feita por Tarkovsky ao “pesado fardo” de ser emigrado associada à ideia de que os russos nunca deviam ser forçados a viver longe do solo pátrio (Tarkovsky, 1985). Partindo dessa ideia, esta parte é, num primeiro momento, dedicada à contextualização da obra de Tarkovsky no seio da tradição cultural russa. Ou seja, ao mesmo tempo que são utilizados elementos biográficos e autobiográficos que permitem compreender o ambiente cultural, social e político que envolveu a criação das obras de Tarkovsky, procurou-se, num segundo momento, integrar essas obras na tradição de uma intelligentsia que desenvolveu um pensamento muito específico sobre a Rússia enquanto pátria espiritual, de que Pushkin ou Dostoievsky são apenas dois exemplos paradigmáticos. Tarkovsky foi um exilado, um intelectual russo de certa forma obrigado a sair do seu país. A sua exposição ao mundo ocidental a partir de princípios dos anos 80 não implicou necessariamente a separação dos seus hábitos e das suas crenças. Pelo contrário, o exílio fez com que a sua reflexão sobre a Rússia se acentuasse e repercutisse nos seus filmes. Os valores da cultura russa, em especial os valores de uma espiritualidade com raízes na fé cristã ortodoxa que a todo o momento emergem na sua obra, guiaram Tarkovsky não apenas enquanto indivíduo, mas como um intelectual que tentou partilhar a sua vida com o universo. O conflito (agón) que nele se desenvolveu motivado pelo abandono da sua “terra espiritual” e pela oposição aos valores dominantes no Ocidente é, assim, o tema valorizado nesta parte do livro.
A segunda parte é inteiramente dedicada à análise do sentimento de perda, um sentimento denso (pathos) tratado de formas diferentes em Nostalgia e O Sacrifício. Nestas duas obras, a memória das origens é particularmente evidente e está associada à situação de exílio em que Tarkovsky vivia. Na sua última entrevista, afirmou: “Sendo ortodoxo, considero a Rússia como a minha terra espiritual. Nunca renunciarei a ela, mesmo que não a possa voltar a ver” (Tarkovsky, 1986). Esta relação de Andrei Tarkovsky com a Rússia reflete-se de uma forma mais direta na personagem central de Nostalgia (Andrei Gortchakov), mas não está ausente em O Sacrifício. No caso deste filme, salienta-se a subliminaridade da presença do sentimento nostálgico e da memória das origens. O trabalho da memória implica a recordação e o esquecimento, este especialmente importante quando falamos de memória traumática, como é o caso de Tarkovsky. Estando ele afastado para sempre da sua “terra espiritual”, a memória levará à criação de uma pátria imaginária, uma pátria interior que, necessariamente, não corresponderá à “pátria material”. Esta será a função terapêutica da memória e dedica-se algum espaço à análise do modo como se desenvolve nos dois filmes de Tarkovsky. Por outro lado, a criação dessa pátria imaginária é feita através da mediação de uma obra de arte, o filme, que é uma narrativa estética com sentido cultural e político (Gil et al., 2004: 15). Associado ao papel da memória no quadro da condição do exilado, assume centralidade o conceito de nostalgia pensada como “relação entre a biografia individual e a biografia de grupos ou nações, entre a memória coletiva e pessoal” (Boym, 2001: XVI), como Svetlana Boym propõe na sua obra O Futuro da Nostalgia que, abordando o conceito de um ponto de vista geral, dedica grande atenção ao caso específico da Rússia e dos russos. Assim, e dada a riqueza da linguagem cinematográfica de Andrei Tarkovsky, impõe-se o estudo da narratologia, da dramatologia e da simbólica dos dois filmes a fim de analisar como desempenham a sua função de recordação mnemónica num contexto marcado pelo exílio e pelo trauma.

A terceira parte retoma os conceitos de memória, trauma e exílio, mas numa análise mais centrada no sacrifício como catarse (katharsis), para a qual serão importantes os conceitos de sacrifício (autoimolação), violência, sagrado e bode expiatório. A ideia de sacrifício está fortemente ligada aos valores cristãos presentes em toda a obra de Tarkovsky e a questão do sagrado e a degradação dos valores no mundo moderno não são novidades em Nostalgia e O Sacrifício. Bastaria ver o filme dedicado ao pintor de ícones russo Andrei Rublev, a problemática central de Stalker ou mesmo Solaris, para percebermos como esses são temas recorrentes em toda a filmografia de Tarkovsky. No entanto, a noção de sacrifício ganha maior ênfase naqueles dois, em especial quando Alexander, personagem central de O Sacrifício, queima a sua casa num ato claramente ritual e sacrificial. O significado do(s) sacrifício(s) nos dois filmes em estudo será o da expiação catártica motivada pela necessidade de repor a ordem do universo perturbada pela secundarização da fé e da capacidade de dádiva dos indivíduos no mundo moderno, no qual o ato sacrificial é visto como escândalo precisamente pelo egoísmo a que o materialismo moderno condenou as pessoas. Este universo ainda parecerá mais caótico aos olhos de um exilado como Andrei Tarkovsky, traumatizado pelo afastamento das suas raízes culturais, pelo que a expurgação do mal assume um carácter ainda mais urgente, podendo os próprios filmes ser vistos como instrumentos de catarse no trabalho complexo que é lidar com a memória das origens no exílio.

Rui Manuel Brás

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